segunda-feira, 7 de maio de 2012
quarta-feira, 25 de abril de 2012
terça-feira, 10 de abril de 2012
Aulas de desenho
A partir da semana q vem estarei reunindo um grupo de alunos e amigos para sessões de desenhos com modelo vivo num atelier da Fradique Coutinho, na Vila Madalena, em São Paulo.
Quem tiver interesse em participar mande um e-mail para informações.
Abs.
quarta-feira, 14 de março de 2012
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Do específico da arte
Por J. A. Van Acker,
Década de 80
O específico da Arte não é a criatividade.
A criatividade exerce-se em qualquer ramo de atividade — na filosofia, na ciência, no comércio, na indústria, na política e até no crime, até na guerra — enfim, em tudo podemos aplicar nossa criatividade. Segue-se que o ato não é intrínseco ao ato artístico, assim como o ato artístico não é intrinsecamente um ato criador.
Também não é a expressão o específico da Arte.
Continuamente nos estamos expressando no comum de nossa vida cotidiana — seja um gesto ou uma palavra, nossas reações, nossas preferências, seja um rito de dor, seja um riso de alegria — tudo isto se expressa sem que se faça Arte.
Tão pouco a beleza é o específico da Arte.
Para a maioria das criaturas a estética está tão intimamente ligada à idéia de Arte que lhes parece impossível existir a Arte sem beleza. De certo modo é verdade — e teremos de ver adiante o porquê — mas, seja como for, o fato é que existe a beleza sem a Arte. Não é portanto a beleza o específico da Arte. Fora desta, ela também existe, e em alto grau, como na natureza, por exemplo. Qual o artista sincero que já não tenha suspeitado de si para si que seu trabalho nem chega aos pés do mais trivial e insignificante "trabalhinho" da natureza? Além disso, deixando-se de lado essa natureza do mundo a nossa volta, todos os setores, que poderíamos chamar de mentais, ou espirituais, possuem sua estética — como a religião, por exemplo, ou até a matemática. Ao simples resolver de um teorema podemos ser surpreendidos por uma repentina invasão da emoção estética. A estética é absolutamente imprevisível: não é preciso baixar às aberrações do gosto perverso, basta citar o caso clássico do médico que consegue achar "belíssimo" um tumor. Sim, a estética é realmente imprevisível. Mas o fato é que nem esse tumor, nem a religião de um santo, nem a lindeza de um teorema são Arte — como também não pode ser considerada Arte toda a magnificência da natureza.
Mas, ao lado da estética, há uma outra idéia que também, na mente de muitos, se funde à idéia de Arte — e chegamos assim à questão da maestria. Também esta não é o específico da Arte.
Trata-se de uma idéia antiga, mas que perdura até hoje no geral das mentalidades — a Maestria! — Arte seria aquilo que é feito a primor, com invenção, com capacidade, com perfeição — não importa o que — qualquer coisa; desde mesas e cadeiras até pontes de estrada de ferro, toda espécie de artefatos, toda obra bem planejada, bem executada, bem concluída, enfim, a coisa feita magistralmente, inclusive as chamadas "Belas Artes", que seriam então a maestria aplicada à obtenção da beleza. Mas ao lado das "Belas Artes", havendo sempre espaço para a concepção da Arte como sendo um conjunto de artes — mesmo no caso de coisas simplesmente bem urdidas: a arte de enganar, a arte de persuadir, a arte de ganhar dinheiro, e assim por diante, a arte disso, a arte daquilo, a arte daquiloutro. Não importa! Arte culinária, artes gráficas, arte do diabo — tudo arte! — desde que conseguido o golpe de mestre.
Mas, desta forma, note-se que o ARTÍFICE virá para absoluto primeiro plano enquanto que o ARTISTA propriamente dito recederá para um plano inferior, obscuro e indefinido. Ora, foi para resgatar justamente esse ARTISTA que tentamos agora uma maior especificação do seu campo de ação.
A teoria que concebe a Arte segundo as qualidades do ARTÍFICE (a Arte como ato de maestria) é uma teoria qualitativa da Arte. Maestria não é "Algo", é qualidade de "Algo". Teríamos então que o específico da Arte residiria no "como" e não no "o que". Nesse caso, porém, tanto poderíamos dizer que está naquilo realizado com paixão, ou com furor, ou com denodo, ou com audácia (como aliás também se diz). Seria assim uma outra qualidade: a expressão — entrando para o lugar da maestria como indicatriz da natureza específica da Arte. Mas no lugar da expressão, por sua vez, poderíamos ter ainda uma terceira qualidade (um terceiro "como"): a criatividade — e, no lugar da criatividade; a beleza — e assim ao infinito... Não. O específico da Arte tem de ser outra coisa. Tem de ser algo só dela.
Durante muito tempo, de fato cogitamos se a Arte não seria mesmo esse fenômeno antes adjetivo que substantivo. Tal ordem de idéias é estimulante porque, dando-se o fenômeno artístico não no âmbito da dedução mas no da apreensão sensível, e, sendo a apreensão sensível a função que detecta diretamente a qualidade, é natural e mesmo tentador irmos por esse caminho abaixo e de vez tratarmos de batizar a Arte como fenômeno adjetivo — pautando desarte seu próprio ser no diapasão das qualidades que eventualmente vá apresentando.
Esta é, aliás, no geral, a atitude da crítica. Debruça-se esta sobre o VALOR, ali se concentra, ali queima pestanas chegando, neste afã, por vezes, a atribuir principalmente a valores um tanto extravagantes apenas paralelos à Arte, como por exemplo a tendência contemporânea de emprestar uma importância exagerada ao valor histórico de uma obra de arte.
Mas a crítica é assim mesmo. Valorar é legitimamente sua função, é de sua natureza discutir, descobrir, explicar, comentar, analisar qualidades. Porém, seria apenas enquanto se limitasse a comentadora dessas qualidades — como dizendo: "Tal obra é boa Arte por tais e tais qualidades; boa por criativa; boa por expressiva; boa por bela; boa por magistral, etc...". Mas se a crítica, extrapolando suas considerações, feitas apenas a nível qualitativo, tenta aplicar esses mesmos critérios qualitativos ao exame do próprio ser do fenômeno artístico, arrisca-se então a enredar-se em sérios problemas de interpretação. Se a crítica julga não artística uma obra por não bela, não magistral, não criativa, não expressiva, etc... ou não histórica — então está tacitamente afirmando serem essas tantas qualidades o próprio ser da Arte.
E nesse ponto novamente nos encontramos ante o velho problema do Bom e do Ruim em relação ao Ser e ao Não ser, pois não se pode negar que também em matéria artística somos quase que instintivamente impelidos a considerar mais a qualidade que o fato. A moral da história, também em Arte, é um pólo magnético que nos orienta, é ela que dá sentido às coisas em qualquer campo. Sem ela mal nos poderíamos orientar perante ou dentro de qualquer fenômeno. Poder-se-ia ter como política uma má política? E seriam de fato relações as más relações? E uma má Arte? Poderá ser sentida como Arte? Dificilmente, é claro! Quem em sã consciência o faria?
Porém há o outro lado da vertente. Uma filosofia que assim concebe a Arte como Qualidade é a mais natural. Sim, mas também levará fatalmente a um desarraigamento em relação à natureza intrínseca do fenômeno, e a uma confusão entre este e as qualidades extrínsecas que reflete. Já ficou colocado que essas qualidades extrínsecas pertencem à vida e ao mundo em geral e não à Arte em particular — coisa que nos obriga a aceitar, por exemplo, o fato aparentemente absurdo, mas verdadeiro, que nosso grandioso sistema solar, em toda a sua magnificência, não seja Arte, e que a mais insignificante das obras de Arte o seja.
Esse simples fato, dito a alguns iniciados, naturalmente não causa espécie alguma, mas dito à maioria dos indivíduos, principalmente a leigos, causa grande espanto e uma espécie de desarvoramento indefinido. Nossa época, essencialmente científica, carece de um consenso sobre Arte. A Arte tornou-se o elemento recessivo de nossa época, uma terra de ninguém, assim como na Idade Média o elemento recessivo e a terra de ninguém eram Ciência. Ao obscurantismo científico da Idade Média corresponde o obscurantismo artístico da Idade contemporânea. Mas, mesmo assim, ou por isso mesmo, é preciso obter alguma luz, alguma estabilidade nas idéias, muito embora (sendo o campo artístico um campo absolutamente livre) seja sempre perigoso estabelecer ali normas rígidas que, desastrosamente, possam transformar-se em algo parecido com leis. Mas, ao nos iniciarmos no estudo da Historia da Arte, cremos que seja necessária, ao menos provisoriamente, uma filosofia capaz de investigar mais à puridade justamente essas características que distinguem a Arte dos outros fenômenos naturais. Sobretudo o neófito — seja como aluno ou simples interessado — ressente-se da indefinição nesse ponto, debatendo-se ele entre mil vozes que lhe dizem de tudo sobre o assunto.
A indefinição, em qualquer campo, é, ou pode ser, desastrosa. No caso da Arte, a conhecida ignorância, incompreensão, o desinteresse a seu respeito reinantes hoje na sociedade são devidos, em grande parte, à indefinição. Idéias irrefletidas e opiniáticas que, gerais e esparsas, circulam ao sabor das modas e dos caprichos, bombardeiam de todos os lados o neófito, confundindo-o e levando-o a um penoso estado de perplexidade. Diante do estudante de Arte erguem-se verdadeiros títeres ideológicos, impenetráveis, exigindo valores sempre intangíveis que, embora impostos a todos, parecem estar reservados exclusivamente ao uso dos "Famosos"; circunstância essa que impede o estudante de incorporar uma idéia sólida e clara do fenômeno artístico, uma diretriz estável a que possa referendar-se internamente, tornando assim possível sua independência.
Como professores de Arte, por exemplo, têm-nos vindo às mãos estudantes completamente paralisados e esterilizados pelo que chamaríamos de "síndrome de criatividade". Não produzem, não desfrutam mais, estiolados que estão em seu sagrado horror ao "Déjà fait". Para eles a Arte tornou-se Inovação por excelência; o passado está fechado e cimentado e a Arte do presente monta-se sobre uma constante ruptura com o que foi. Segue-se que a Arte é História. A História e sua suposta constante mutação; no que o Artista é transformado em um ansioso caçador de lances inéditos, sempre fiscalizado pelo historiador que lhe irá marcando os pontos para o vestibular da imortalidade.
Essa situação, como é fácil imaginar, tende a ser neurotizante. Isto porque a Criatividade, que é um valor extrínseco da Arte, foi tomada como natureza intrínseca, resultando daí um embaçamento da consciência; o mesmo se dando com a expressividade quando é também tomada como intrínseca e não extrínseca ao fenômeno artístico. Nesse caso observa-se um fenômeno curioso, muito comum há algum tempo atrás, que era, não se ficar paralisado, como na "síndrome de criatividade", mas ficar-se embotado, não se podendo reagir a não ser sob violentos impactos que nos abalassem os alicerces, sendo assim a Arte transformada numa espécie de raio fulminante cujo fim precípuo seria o de desacomodar.
Temos assim que a confusão estabelecida entre o que é Arte e o que seriam suas eventuais qualidades, tem sido a maior causa da Babel em que gradualmente foi afundado a teoria da Arte já desde o moralismo estético de um Diderot ou de um Winkelmann em fins do séc. XVIII, quando esses autores abriram fogo contra o Rococó alegando ser este estilo "por demais frívolo". De lá para cá, então, carregou-se tanto nos ditos critérios qualitativos que, em alguns casos, chega-se hoje a negar, através deles mesmos, pura e simplesmente, o princípio da Arte, em favor de qualidades que já nada têm em comum com esta — como no caso da moderna tendência crítica que pretende exigir da Arte que seja científica! De onde se segue que o artista em tal regime é levado a renegar o rito próprio de seu trabalho para adotar toda uma série grotesca de cacoetes científicos — como atirar-se em pesquisas e na realização de experimentos, ou até a apresentar relatórios, redigir projetos ou ater-se a propostas de trabalho.
Vendo-se pois ante a confusão inextricável e infinita que uma concepção qualitativa da Arte gera no estudante, vendo-nos também ante o desânimo e apatia conformista em que jaz o público em geral, devido a essas mesmas concepções, fomos levados a dar de mão de uma vez por todas, à visão adjetiva do fenômeno artístico para adotarmos francamente a visão substantiva.
Mas em que consiste então este Próprio e Único da Arte?
O Próprio e Único da Arte, aquilo que lhe é específico, aquilo que, digamos, confunde-se com ela é, ao nosso ver a FICÇÃO. A FICÇÃO não existe fora da arte. Não existe nas "outras coisas". As "outras coisas" ou são, ou não são. A Arte (a ficção) é sem ser e, sem ser, é. Fazer Arte é fazer com que seja aquilo que não é; e fazer com que não seja aquilo que é. Toda atividade artística atua sempre nessa região média entre o ser e o não ser.
Não se trata de fantasia. A fantasia é um fenômeno diverso, como que o inverso da ficção. Embora a fantasia se dê unicamente no campo mental, está profundamente comprometida com a realidade, por um lado, e, por outro, é arbitrária, ou seja: não está comprometida com a verdade — ao passo que a ficção, podendo dar-se inclusive no campo material, só que de forma totalmente fictícia, no entanto nos remete diretamente ao próprio âmago da verdade. Sabemos, por exemplo que matar alguém em fantasia não nos exime do peso da culpa, ao passo que o mesmo ato, "praticado" ficcionalmente é algo perfeitamente inocente, algo como que pairando suspenso na isenção da hipótese.
Costuma-se dizer que a Arte é uma mentira, "artes do diabo" é o dito comum aludindo-se às artimanhas do Grande Mistificador. Mas a Arte não é um engodo, ou, ao menos, não deve sê-lo. A própria consciência do processo artístico pede que, o tempo todo, se saiba não ser realidade aquilo que ali se passa. A irrealidade, na Arte, não é mentira, é um dispositivo, um dispositivo inerente ao próprio ser da Arte, e graças ao qual nos vemos libertados da contingência dos fatos sem que com isso percamos a sua essência. A essência dos fatos (ou Verdade) sem a contingência (ou Realidade) — a Arte é verdade liberta de realidade.
Temos então que Verdade não é qualidade mas atributo do próprio ser da Arte, assim como "mentira" ou irrealidade não é defeito mas também atributo. A Ficção pressupõe o Vero e o Irreal ao mesmo tempo. Podemos observar: a Arte esvai-se, desaparece, assim que resvale da verdade ou que toque o real. Entre dois perigos a Arte há de atuar, há de mover-se, há de viver.
Para dar uma idéia mais concreta do que acabamos de expor, tomemos o exemplo de um ator que está representando aí no palco o papel de um ébrio. Ora, para que a Arte subitamente desapareça, ou nem chega a existir ali, bastam dois casos: 1) se o ator não lograr a nota essencial que caracteriza a embriaguês e — 2) se ele estiver realmente bêbado.
Outro exemplo: tomemos desta vez, para não citar nenhuma obra em especial, esse nu hipotético que, também hipoteticamente, está, digamos, exposto na Galeria Uffizzi. Temos uma escultura, é a figura de uma mulher; ali seu sorriso, ali sua delicada forma, sua essência feminina, sua graça anatômica, sua sutil presença; mas a mulher mesma não há, não há a mulher real. Ela é toda personagem; aí nua, de mármore, como uma deusa... e está feita a Arte!
No caso do ator, tivemos um exemplo de como a Arte pode repentinamente escapar de nossas mãos. No caso dessa estátua, temos um de como ela surge. "Oh, como são vivas essas formas!", "Como vibram essas carnes!" — são interjeições costumeiramente ouvidas nos museus. Está ali a plaquinha indicando o nome da figura — trata-se de uma deusa! Mas, de fato mesmo, não há ali deusa nem carnes nem nada, há a estátua. Porém há também a personagem, há a verdade das formas, há toda uma sabedoria que se alevanta como uma miragem e, ao mesmo tempo, não há nada do que aí está. Há apenas o reflexo. O próprio mármore de que é feita a escultura lá não existe mais como mármore real, foi absorvido no todo da ficção. Ele aqui imita as formas da carne, toma seu lugar, e, como material nobre, acentua ficcionalmente aquele aspecto da mulher que é deusa, não simplesmente mulher. Em Arte, a matéria empregada faz parte da ficção.
Outro aspecto que também faz parte da ficção é o realismo. Ao contrário do que tantos temem, o realismo não faz como que a obra escape da ficção e caia no real. Seria de fato absurdo dizer-se que a realidade é realista. Só o não real pode ser realista. Notemos que o escultor de nossa estátua tratou com acurado realismo a sua forma; e já ficou dito o quão estas formas são uma perfeita miragem. Teríamos o real, nesse caso, só se o escultor, em vez dessa escultura tão realista, expusesse ali, pura e simplesmente, uma mulher, ou uma réplica que fiel e apenasmente a reproduzisse — não imitasse — com o que naturalmente iria causar sensação; mas a sensação em si não basta para que obtenhamos Arte. Uma mulher real em vez da escultura de uma mulher estaria no caso daquele ator de que falamos, que em vez de representar a embriaguez, estava bêbado de fato.
Nada temos contra as sensações assim diretamente provocadas pela natureza. Ao contrário. Achamos que as maravilhosas formas de nossa modelo são tão adoráveis nela em carne e osso quanto no mármore da estátua, ou até ainda mais apreciáveis. A Arte não é um refúgio para nosso escapismo ou para que nos elevemos acima da realidade. A Arte (a ficção) não está acima. Ela é simplesmente um recurso de que dispomos para que através de uma estratégica eliminação da contingência do real, possamos mais livremente penetrar o âmago desse mesmo real. De fato, uma vez estabelecida a natureza específica da Arte, é preciso que consideremos outrossim que esta não pode prescindir das qualidades comuns à natureza de todas as coisas. A natureza é superior à Arte. A natureza é total, sintética, dinâmica; a Arte parcial, analítica, estática. Seletiva por excelência. A Arte penetra e fixa um aspecto da verdade segundo um ponto de vista — ao passo que a natureza, indiscriminada, é aberta, abrangente, contém e processa ao mesmo tempo todos os pontos de vista. Daí a grande utilidade da Arte. Caracteristicamente limitados, precisamos da Arte para que através de uma supressão da realidade totalizada da natureza, possamos entendê-la e senti-la do nosso ponto de vista, sem contudo faltar-lhe à verdade. A arte toma do todo uma parte e dá a essa parte, graças a um truque (a ficção), uma conotação de todo.
Temos então um segmento da verdade que vive sua totalidade própria, fechada e separada da totalidade aberta do real. Não há obra de arte aberta. A concepção de "obra de arte aberta" é justamente uma dessas falácias de uma época de apogeu científico e de obscurantismo artístico, e que portanto reluta por todos os meios em aceitar a natureza ficcional característica da Arte como fenômeno. Como fenômeno, a Arte é tipicamente fechada, vive seu mundo próprio, como um universo entre parênteses, que como tal é obviamente fixo e inalterável. Toda dinâmica ali existente dá-se apenas interiormente, no interior do dado ficcional estabelecido, que, uma vez concluída a obra, segue seu caminho próprio, separado dos caminhos dos dados da realidade exterior que, deste ponto em diante, não mais interferem.
É bem verdade que a Arte, antes de ser um fenômeno cultural, é um fenômeno natural como qualquer outro. Um fenômeno natural, espontâneo e necessário — e, nisso, a Arte é também parte do real. Como fenômeno, a Arte tem também sua contingência. Mas a Arte como Arte, contém apenas a miragem da contingência. A arte é um fenômeno reflexo. Daí talvez tê-la Aristóteles chamado de "imitação". Evidentemente, como todos sabemos, essa definição de Aristóteles da Arte como imitação da natureza é o que há de mais contrário às concepções modernas de Arte; mas isto mais porque geralmente se confunde a imitação com a reprodução. A reprodução é uma simples duplicação do real — ao passo que a imitação é o real que justamente perde sua realidade por estar apenas refletido em outro real que não lhe é próprio. Lá ficou sua verdade despida de realidade e travestida nesta outra "realidade" fictícia que é a Arte, ou como é o sonho, como poderíamos dizer também, ou que é a ficção, ou que é a imitação, em suma: que é o ser-reflexo.
E é desse ser-reflexo que emana então este encantamento todo especial, todo particular, este interesse próprio, característico, íntimo e profundo, que é o interesse que a ficção provoca, típico do espetáculo artístico, e diferente do interesse suscitado por qualquer outro espetáculo real, por mais momentoso que seja. Um macaco que ponha a imitar pessoas no zoológico, pessoas que ali estão a observá-lo, imediatamente provocará nesses circunstantes uma mudança de interesse. Surgirá ali uma platéia. Ver-se-á o macaco de repente, como outros olhos, ver-se-á nele o homem refletido — não como uma réplica mas como algo que surge em outra coisa, algo subitamente transportado para o mundo livre e hipotético da irrealidade. O que interessa doravante nesse macaco não é nem o macaco-homem nem muito menos o homem-macaco, é o macaco-ator, esse que, embora em nível animal e rudimentar, e sem ser homem, de repente, consegue agir momentaneamente como se o fosse — assim como aquele ator, que em outro nível, sem estar bêbado, age momentaneamente como se o estivesse, ou como o mármore da estátua que, sem ser carne, fascina ficticiamente como se carne fosse.
É o fascínio do ser-reflexo que nos atrai de maneira particular. Atrai e envolve. Já na natureza bruta esse ser se insinua. Qualquer reflexo dá de si um chamamento situado alhures perto da emoção artística. É o sol refletido nas folhas de uma árvore, por exemplo, (para não falar de um vitral) que nos atrai bem mais que o próprio sol, cuja ígnea realidade, aliás, nem pode ser encarada diretamente. É a lua ou qualquer outra coisa refletida na água. É o brilho sedutor dos objetos polidos. Depois são os galos que respondem um ao outro, prenunciando os artistas que responderão também um ao outro no transcorrer da história. Depois o homem com sua misteriosa querência pela Arte, que vai desde as formas mais simples, como a criança que brinca com bonecas, até as formas mais sofisticadas, como Shakespeare fazendo seu teatro. E isso sem dizer de todos nós, artistas ou não, que fazemos todos Arte enquanto dormimos e sonhamos.
Os sonhos estão na base de todo esse complexo imitativo que podemos chamar de ficção. A Arte nada mais é senão um sonho que, em estado de vigília, é projetado sobre alguma matéria. A Arte participa das mesmas fontes-verdade dos sonhos, e participa (ipsis literis) dos mesmíssimos processos ficcionais ao elaborá-las. Por conseguinte quando falamos da Arte Grega, por exemplo, estamos falando na verdade é do Sonho Grego; ou quando falamos de Arte Medieval, estamos na verdade é falando do Sonho Medieval, e assim por diante... A história da Arte não é a história da humanidade, ela é a história dos sonhos da humanidade.
Década de 80
O específico da Arte não é a criatividade.
A criatividade exerce-se em qualquer ramo de atividade — na filosofia, na ciência, no comércio, na indústria, na política e até no crime, até na guerra — enfim, em tudo podemos aplicar nossa criatividade. Segue-se que o ato não é intrínseco ao ato artístico, assim como o ato artístico não é intrinsecamente um ato criador.
Também não é a expressão o específico da Arte.
Continuamente nos estamos expressando no comum de nossa vida cotidiana — seja um gesto ou uma palavra, nossas reações, nossas preferências, seja um rito de dor, seja um riso de alegria — tudo isto se expressa sem que se faça Arte.
Tão pouco a beleza é o específico da Arte.
Para a maioria das criaturas a estética está tão intimamente ligada à idéia de Arte que lhes parece impossível existir a Arte sem beleza. De certo modo é verdade — e teremos de ver adiante o porquê — mas, seja como for, o fato é que existe a beleza sem a Arte. Não é portanto a beleza o específico da Arte. Fora desta, ela também existe, e em alto grau, como na natureza, por exemplo. Qual o artista sincero que já não tenha suspeitado de si para si que seu trabalho nem chega aos pés do mais trivial e insignificante "trabalhinho" da natureza? Além disso, deixando-se de lado essa natureza do mundo a nossa volta, todos os setores, que poderíamos chamar de mentais, ou espirituais, possuem sua estética — como a religião, por exemplo, ou até a matemática. Ao simples resolver de um teorema podemos ser surpreendidos por uma repentina invasão da emoção estética. A estética é absolutamente imprevisível: não é preciso baixar às aberrações do gosto perverso, basta citar o caso clássico do médico que consegue achar "belíssimo" um tumor. Sim, a estética é realmente imprevisível. Mas o fato é que nem esse tumor, nem a religião de um santo, nem a lindeza de um teorema são Arte — como também não pode ser considerada Arte toda a magnificência da natureza.
Mas, ao lado da estética, há uma outra idéia que também, na mente de muitos, se funde à idéia de Arte — e chegamos assim à questão da maestria. Também esta não é o específico da Arte.
Trata-se de uma idéia antiga, mas que perdura até hoje no geral das mentalidades — a Maestria! — Arte seria aquilo que é feito a primor, com invenção, com capacidade, com perfeição — não importa o que — qualquer coisa; desde mesas e cadeiras até pontes de estrada de ferro, toda espécie de artefatos, toda obra bem planejada, bem executada, bem concluída, enfim, a coisa feita magistralmente, inclusive as chamadas "Belas Artes", que seriam então a maestria aplicada à obtenção da beleza. Mas ao lado das "Belas Artes", havendo sempre espaço para a concepção da Arte como sendo um conjunto de artes — mesmo no caso de coisas simplesmente bem urdidas: a arte de enganar, a arte de persuadir, a arte de ganhar dinheiro, e assim por diante, a arte disso, a arte daquilo, a arte daquiloutro. Não importa! Arte culinária, artes gráficas, arte do diabo — tudo arte! — desde que conseguido o golpe de mestre.
Mas, desta forma, note-se que o ARTÍFICE virá para absoluto primeiro plano enquanto que o ARTISTA propriamente dito recederá para um plano inferior, obscuro e indefinido. Ora, foi para resgatar justamente esse ARTISTA que tentamos agora uma maior especificação do seu campo de ação.
A teoria que concebe a Arte segundo as qualidades do ARTÍFICE (a Arte como ato de maestria) é uma teoria qualitativa da Arte. Maestria não é "Algo", é qualidade de "Algo". Teríamos então que o específico da Arte residiria no "como" e não no "o que". Nesse caso, porém, tanto poderíamos dizer que está naquilo realizado com paixão, ou com furor, ou com denodo, ou com audácia (como aliás também se diz). Seria assim uma outra qualidade: a expressão — entrando para o lugar da maestria como indicatriz da natureza específica da Arte. Mas no lugar da expressão, por sua vez, poderíamos ter ainda uma terceira qualidade (um terceiro "como"): a criatividade — e, no lugar da criatividade; a beleza — e assim ao infinito... Não. O específico da Arte tem de ser outra coisa. Tem de ser algo só dela.
Durante muito tempo, de fato cogitamos se a Arte não seria mesmo esse fenômeno antes adjetivo que substantivo. Tal ordem de idéias é estimulante porque, dando-se o fenômeno artístico não no âmbito da dedução mas no da apreensão sensível, e, sendo a apreensão sensível a função que detecta diretamente a qualidade, é natural e mesmo tentador irmos por esse caminho abaixo e de vez tratarmos de batizar a Arte como fenômeno adjetivo — pautando desarte seu próprio ser no diapasão das qualidades que eventualmente vá apresentando.
Esta é, aliás, no geral, a atitude da crítica. Debruça-se esta sobre o VALOR, ali se concentra, ali queima pestanas chegando, neste afã, por vezes, a atribuir principalmente a valores um tanto extravagantes apenas paralelos à Arte, como por exemplo a tendência contemporânea de emprestar uma importância exagerada ao valor histórico de uma obra de arte.
Mas a crítica é assim mesmo. Valorar é legitimamente sua função, é de sua natureza discutir, descobrir, explicar, comentar, analisar qualidades. Porém, seria apenas enquanto se limitasse a comentadora dessas qualidades — como dizendo: "Tal obra é boa Arte por tais e tais qualidades; boa por criativa; boa por expressiva; boa por bela; boa por magistral, etc...". Mas se a crítica, extrapolando suas considerações, feitas apenas a nível qualitativo, tenta aplicar esses mesmos critérios qualitativos ao exame do próprio ser do fenômeno artístico, arrisca-se então a enredar-se em sérios problemas de interpretação. Se a crítica julga não artística uma obra por não bela, não magistral, não criativa, não expressiva, etc... ou não histórica — então está tacitamente afirmando serem essas tantas qualidades o próprio ser da Arte.
E nesse ponto novamente nos encontramos ante o velho problema do Bom e do Ruim em relação ao Ser e ao Não ser, pois não se pode negar que também em matéria artística somos quase que instintivamente impelidos a considerar mais a qualidade que o fato. A moral da história, também em Arte, é um pólo magnético que nos orienta, é ela que dá sentido às coisas em qualquer campo. Sem ela mal nos poderíamos orientar perante ou dentro de qualquer fenômeno. Poder-se-ia ter como política uma má política? E seriam de fato relações as más relações? E uma má Arte? Poderá ser sentida como Arte? Dificilmente, é claro! Quem em sã consciência o faria?
Porém há o outro lado da vertente. Uma filosofia que assim concebe a Arte como Qualidade é a mais natural. Sim, mas também levará fatalmente a um desarraigamento em relação à natureza intrínseca do fenômeno, e a uma confusão entre este e as qualidades extrínsecas que reflete. Já ficou colocado que essas qualidades extrínsecas pertencem à vida e ao mundo em geral e não à Arte em particular — coisa que nos obriga a aceitar, por exemplo, o fato aparentemente absurdo, mas verdadeiro, que nosso grandioso sistema solar, em toda a sua magnificência, não seja Arte, e que a mais insignificante das obras de Arte o seja.
Esse simples fato, dito a alguns iniciados, naturalmente não causa espécie alguma, mas dito à maioria dos indivíduos, principalmente a leigos, causa grande espanto e uma espécie de desarvoramento indefinido. Nossa época, essencialmente científica, carece de um consenso sobre Arte. A Arte tornou-se o elemento recessivo de nossa época, uma terra de ninguém, assim como na Idade Média o elemento recessivo e a terra de ninguém eram Ciência. Ao obscurantismo científico da Idade Média corresponde o obscurantismo artístico da Idade contemporânea. Mas, mesmo assim, ou por isso mesmo, é preciso obter alguma luz, alguma estabilidade nas idéias, muito embora (sendo o campo artístico um campo absolutamente livre) seja sempre perigoso estabelecer ali normas rígidas que, desastrosamente, possam transformar-se em algo parecido com leis. Mas, ao nos iniciarmos no estudo da Historia da Arte, cremos que seja necessária, ao menos provisoriamente, uma filosofia capaz de investigar mais à puridade justamente essas características que distinguem a Arte dos outros fenômenos naturais. Sobretudo o neófito — seja como aluno ou simples interessado — ressente-se da indefinição nesse ponto, debatendo-se ele entre mil vozes que lhe dizem de tudo sobre o assunto.
A indefinição, em qualquer campo, é, ou pode ser, desastrosa. No caso da Arte, a conhecida ignorância, incompreensão, o desinteresse a seu respeito reinantes hoje na sociedade são devidos, em grande parte, à indefinição. Idéias irrefletidas e opiniáticas que, gerais e esparsas, circulam ao sabor das modas e dos caprichos, bombardeiam de todos os lados o neófito, confundindo-o e levando-o a um penoso estado de perplexidade. Diante do estudante de Arte erguem-se verdadeiros títeres ideológicos, impenetráveis, exigindo valores sempre intangíveis que, embora impostos a todos, parecem estar reservados exclusivamente ao uso dos "Famosos"; circunstância essa que impede o estudante de incorporar uma idéia sólida e clara do fenômeno artístico, uma diretriz estável a que possa referendar-se internamente, tornando assim possível sua independência.
Como professores de Arte, por exemplo, têm-nos vindo às mãos estudantes completamente paralisados e esterilizados pelo que chamaríamos de "síndrome de criatividade". Não produzem, não desfrutam mais, estiolados que estão em seu sagrado horror ao "Déjà fait". Para eles a Arte tornou-se Inovação por excelência; o passado está fechado e cimentado e a Arte do presente monta-se sobre uma constante ruptura com o que foi. Segue-se que a Arte é História. A História e sua suposta constante mutação; no que o Artista é transformado em um ansioso caçador de lances inéditos, sempre fiscalizado pelo historiador que lhe irá marcando os pontos para o vestibular da imortalidade.
Essa situação, como é fácil imaginar, tende a ser neurotizante. Isto porque a Criatividade, que é um valor extrínseco da Arte, foi tomada como natureza intrínseca, resultando daí um embaçamento da consciência; o mesmo se dando com a expressividade quando é também tomada como intrínseca e não extrínseca ao fenômeno artístico. Nesse caso observa-se um fenômeno curioso, muito comum há algum tempo atrás, que era, não se ficar paralisado, como na "síndrome de criatividade", mas ficar-se embotado, não se podendo reagir a não ser sob violentos impactos que nos abalassem os alicerces, sendo assim a Arte transformada numa espécie de raio fulminante cujo fim precípuo seria o de desacomodar.
Temos assim que a confusão estabelecida entre o que é Arte e o que seriam suas eventuais qualidades, tem sido a maior causa da Babel em que gradualmente foi afundado a teoria da Arte já desde o moralismo estético de um Diderot ou de um Winkelmann em fins do séc. XVIII, quando esses autores abriram fogo contra o Rococó alegando ser este estilo "por demais frívolo". De lá para cá, então, carregou-se tanto nos ditos critérios qualitativos que, em alguns casos, chega-se hoje a negar, através deles mesmos, pura e simplesmente, o princípio da Arte, em favor de qualidades que já nada têm em comum com esta — como no caso da moderna tendência crítica que pretende exigir da Arte que seja científica! De onde se segue que o artista em tal regime é levado a renegar o rito próprio de seu trabalho para adotar toda uma série grotesca de cacoetes científicos — como atirar-se em pesquisas e na realização de experimentos, ou até a apresentar relatórios, redigir projetos ou ater-se a propostas de trabalho.
Vendo-se pois ante a confusão inextricável e infinita que uma concepção qualitativa da Arte gera no estudante, vendo-nos também ante o desânimo e apatia conformista em que jaz o público em geral, devido a essas mesmas concepções, fomos levados a dar de mão de uma vez por todas, à visão adjetiva do fenômeno artístico para adotarmos francamente a visão substantiva.
Mas em que consiste então este Próprio e Único da Arte?
O Próprio e Único da Arte, aquilo que lhe é específico, aquilo que, digamos, confunde-se com ela é, ao nosso ver a FICÇÃO. A FICÇÃO não existe fora da arte. Não existe nas "outras coisas". As "outras coisas" ou são, ou não são. A Arte (a ficção) é sem ser e, sem ser, é. Fazer Arte é fazer com que seja aquilo que não é; e fazer com que não seja aquilo que é. Toda atividade artística atua sempre nessa região média entre o ser e o não ser.
Não se trata de fantasia. A fantasia é um fenômeno diverso, como que o inverso da ficção. Embora a fantasia se dê unicamente no campo mental, está profundamente comprometida com a realidade, por um lado, e, por outro, é arbitrária, ou seja: não está comprometida com a verdade — ao passo que a ficção, podendo dar-se inclusive no campo material, só que de forma totalmente fictícia, no entanto nos remete diretamente ao próprio âmago da verdade. Sabemos, por exemplo que matar alguém em fantasia não nos exime do peso da culpa, ao passo que o mesmo ato, "praticado" ficcionalmente é algo perfeitamente inocente, algo como que pairando suspenso na isenção da hipótese.
Costuma-se dizer que a Arte é uma mentira, "artes do diabo" é o dito comum aludindo-se às artimanhas do Grande Mistificador. Mas a Arte não é um engodo, ou, ao menos, não deve sê-lo. A própria consciência do processo artístico pede que, o tempo todo, se saiba não ser realidade aquilo que ali se passa. A irrealidade, na Arte, não é mentira, é um dispositivo, um dispositivo inerente ao próprio ser da Arte, e graças ao qual nos vemos libertados da contingência dos fatos sem que com isso percamos a sua essência. A essência dos fatos (ou Verdade) sem a contingência (ou Realidade) — a Arte é verdade liberta de realidade.
Temos então que Verdade não é qualidade mas atributo do próprio ser da Arte, assim como "mentira" ou irrealidade não é defeito mas também atributo. A Ficção pressupõe o Vero e o Irreal ao mesmo tempo. Podemos observar: a Arte esvai-se, desaparece, assim que resvale da verdade ou que toque o real. Entre dois perigos a Arte há de atuar, há de mover-se, há de viver.
Para dar uma idéia mais concreta do que acabamos de expor, tomemos o exemplo de um ator que está representando aí no palco o papel de um ébrio. Ora, para que a Arte subitamente desapareça, ou nem chega a existir ali, bastam dois casos: 1) se o ator não lograr a nota essencial que caracteriza a embriaguês e — 2) se ele estiver realmente bêbado.
Outro exemplo: tomemos desta vez, para não citar nenhuma obra em especial, esse nu hipotético que, também hipoteticamente, está, digamos, exposto na Galeria Uffizzi. Temos uma escultura, é a figura de uma mulher; ali seu sorriso, ali sua delicada forma, sua essência feminina, sua graça anatômica, sua sutil presença; mas a mulher mesma não há, não há a mulher real. Ela é toda personagem; aí nua, de mármore, como uma deusa... e está feita a Arte!
No caso do ator, tivemos um exemplo de como a Arte pode repentinamente escapar de nossas mãos. No caso dessa estátua, temos um de como ela surge. "Oh, como são vivas essas formas!", "Como vibram essas carnes!" — são interjeições costumeiramente ouvidas nos museus. Está ali a plaquinha indicando o nome da figura — trata-se de uma deusa! Mas, de fato mesmo, não há ali deusa nem carnes nem nada, há a estátua. Porém há também a personagem, há a verdade das formas, há toda uma sabedoria que se alevanta como uma miragem e, ao mesmo tempo, não há nada do que aí está. Há apenas o reflexo. O próprio mármore de que é feita a escultura lá não existe mais como mármore real, foi absorvido no todo da ficção. Ele aqui imita as formas da carne, toma seu lugar, e, como material nobre, acentua ficcionalmente aquele aspecto da mulher que é deusa, não simplesmente mulher. Em Arte, a matéria empregada faz parte da ficção.
Outro aspecto que também faz parte da ficção é o realismo. Ao contrário do que tantos temem, o realismo não faz como que a obra escape da ficção e caia no real. Seria de fato absurdo dizer-se que a realidade é realista. Só o não real pode ser realista. Notemos que o escultor de nossa estátua tratou com acurado realismo a sua forma; e já ficou dito o quão estas formas são uma perfeita miragem. Teríamos o real, nesse caso, só se o escultor, em vez dessa escultura tão realista, expusesse ali, pura e simplesmente, uma mulher, ou uma réplica que fiel e apenasmente a reproduzisse — não imitasse — com o que naturalmente iria causar sensação; mas a sensação em si não basta para que obtenhamos Arte. Uma mulher real em vez da escultura de uma mulher estaria no caso daquele ator de que falamos, que em vez de representar a embriaguez, estava bêbado de fato.
Nada temos contra as sensações assim diretamente provocadas pela natureza. Ao contrário. Achamos que as maravilhosas formas de nossa modelo são tão adoráveis nela em carne e osso quanto no mármore da estátua, ou até ainda mais apreciáveis. A Arte não é um refúgio para nosso escapismo ou para que nos elevemos acima da realidade. A Arte (a ficção) não está acima. Ela é simplesmente um recurso de que dispomos para que através de uma estratégica eliminação da contingência do real, possamos mais livremente penetrar o âmago desse mesmo real. De fato, uma vez estabelecida a natureza específica da Arte, é preciso que consideremos outrossim que esta não pode prescindir das qualidades comuns à natureza de todas as coisas. A natureza é superior à Arte. A natureza é total, sintética, dinâmica; a Arte parcial, analítica, estática. Seletiva por excelência. A Arte penetra e fixa um aspecto da verdade segundo um ponto de vista — ao passo que a natureza, indiscriminada, é aberta, abrangente, contém e processa ao mesmo tempo todos os pontos de vista. Daí a grande utilidade da Arte. Caracteristicamente limitados, precisamos da Arte para que através de uma supressão da realidade totalizada da natureza, possamos entendê-la e senti-la do nosso ponto de vista, sem contudo faltar-lhe à verdade. A arte toma do todo uma parte e dá a essa parte, graças a um truque (a ficção), uma conotação de todo.
Temos então um segmento da verdade que vive sua totalidade própria, fechada e separada da totalidade aberta do real. Não há obra de arte aberta. A concepção de "obra de arte aberta" é justamente uma dessas falácias de uma época de apogeu científico e de obscurantismo artístico, e que portanto reluta por todos os meios em aceitar a natureza ficcional característica da Arte como fenômeno. Como fenômeno, a Arte é tipicamente fechada, vive seu mundo próprio, como um universo entre parênteses, que como tal é obviamente fixo e inalterável. Toda dinâmica ali existente dá-se apenas interiormente, no interior do dado ficcional estabelecido, que, uma vez concluída a obra, segue seu caminho próprio, separado dos caminhos dos dados da realidade exterior que, deste ponto em diante, não mais interferem.
É bem verdade que a Arte, antes de ser um fenômeno cultural, é um fenômeno natural como qualquer outro. Um fenômeno natural, espontâneo e necessário — e, nisso, a Arte é também parte do real. Como fenômeno, a Arte tem também sua contingência. Mas a Arte como Arte, contém apenas a miragem da contingência. A arte é um fenômeno reflexo. Daí talvez tê-la Aristóteles chamado de "imitação". Evidentemente, como todos sabemos, essa definição de Aristóteles da Arte como imitação da natureza é o que há de mais contrário às concepções modernas de Arte; mas isto mais porque geralmente se confunde a imitação com a reprodução. A reprodução é uma simples duplicação do real — ao passo que a imitação é o real que justamente perde sua realidade por estar apenas refletido em outro real que não lhe é próprio. Lá ficou sua verdade despida de realidade e travestida nesta outra "realidade" fictícia que é a Arte, ou como é o sonho, como poderíamos dizer também, ou que é a ficção, ou que é a imitação, em suma: que é o ser-reflexo.
E é desse ser-reflexo que emana então este encantamento todo especial, todo particular, este interesse próprio, característico, íntimo e profundo, que é o interesse que a ficção provoca, típico do espetáculo artístico, e diferente do interesse suscitado por qualquer outro espetáculo real, por mais momentoso que seja. Um macaco que ponha a imitar pessoas no zoológico, pessoas que ali estão a observá-lo, imediatamente provocará nesses circunstantes uma mudança de interesse. Surgirá ali uma platéia. Ver-se-á o macaco de repente, como outros olhos, ver-se-á nele o homem refletido — não como uma réplica mas como algo que surge em outra coisa, algo subitamente transportado para o mundo livre e hipotético da irrealidade. O que interessa doravante nesse macaco não é nem o macaco-homem nem muito menos o homem-macaco, é o macaco-ator, esse que, embora em nível animal e rudimentar, e sem ser homem, de repente, consegue agir momentaneamente como se o fosse — assim como aquele ator, que em outro nível, sem estar bêbado, age momentaneamente como se o estivesse, ou como o mármore da estátua que, sem ser carne, fascina ficticiamente como se carne fosse.
É o fascínio do ser-reflexo que nos atrai de maneira particular. Atrai e envolve. Já na natureza bruta esse ser se insinua. Qualquer reflexo dá de si um chamamento situado alhures perto da emoção artística. É o sol refletido nas folhas de uma árvore, por exemplo, (para não falar de um vitral) que nos atrai bem mais que o próprio sol, cuja ígnea realidade, aliás, nem pode ser encarada diretamente. É a lua ou qualquer outra coisa refletida na água. É o brilho sedutor dos objetos polidos. Depois são os galos que respondem um ao outro, prenunciando os artistas que responderão também um ao outro no transcorrer da história. Depois o homem com sua misteriosa querência pela Arte, que vai desde as formas mais simples, como a criança que brinca com bonecas, até as formas mais sofisticadas, como Shakespeare fazendo seu teatro. E isso sem dizer de todos nós, artistas ou não, que fazemos todos Arte enquanto dormimos e sonhamos.
Os sonhos estão na base de todo esse complexo imitativo que podemos chamar de ficção. A Arte nada mais é senão um sonho que, em estado de vigília, é projetado sobre alguma matéria. A Arte participa das mesmas fontes-verdade dos sonhos, e participa (ipsis literis) dos mesmíssimos processos ficcionais ao elaborá-las. Por conseguinte quando falamos da Arte Grega, por exemplo, estamos falando na verdade é do Sonho Grego; ou quando falamos de Arte Medieval, estamos na verdade é falando do Sonho Medieval, e assim por diante... A história da Arte não é a história da humanidade, ela é a história dos sonhos da humanidade.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
UM FALSO GIORGI e uma falsa arte brasileira em progressão
* Imagens no fim da postagem
A história merece uma introdução. A peça a qual me refiro pertence a uma família com potencial a se tornar colecionadora de obras de arte, uma vez que um dos lados, o da mãe, vem de família que coleciona. Ou seja, não são pessoas absolutamente inocentes quanto ao mercado de arte.
Certa feita, foram os recém casados a um leilão “idôneo”, me afirmam, e lá arremataram por uma cifra razoável, pouco mais que uma oportunidade, um Bruno Giorgi.
A partir de então esta obra ficou, tranquilamente, vivendo seus dias de sol e orgulho nos jardins da casa, até o momento de ser colocada em xeque. Houveram inicialmente alguns protestos, mas infelizmente as evidencias levam a crer que a obra, antes reverenciada como um exemplar de um dos maiores escultores brasileiros, seja uma fraude.
Não creio que seja difícil prová-lo, as imagens parecem depor mais do que as palavras. Porém, mesmo assim, vamos a elas.
Em primeiro lugar o estilo. É fácil ver que apesar de Giorgi ter usado algumas vezes poses similares – sua aluna Sonia Ebling o fez muito mais - o modo como a forma é tratada está longe de ter a sutileza que marcou a carreira do escultor. Mesmo nas suas mais ousadas estilizações, Bruno Giorgi nunca abandonou a formação que adquiriu ao lado de, nada mais nada menos, Aristides Maillol. Essa marca, ou melhor, essa sensibilidade elaborada e particular em relação a forma é, de fato, sua assinatura e o que, por fim, mais emociona.
A segunda prova estaria nos detalhes, fisionomia, mãos, barriga, mesmo umbigo. Nenhumas dessas partes trazem características do autor, seja no sentido geral ou na execução e acabamento.
Comecemos pela cabeça. Se os olhos tentam imitar o estilo gráfico muitas vezes aplicado pelo mestre, a boca e nariz denunciam claramente a inexperiência do pseudo-escultor, uma tentativa banal de reproduzir o beiço e narinas de modo acadêmico. A própria fisionomia em nada lembra a mestiçagem imaginária Giorgiana tão carregada de tons indígenas e sutilezas de modelagem. A barriga não possui graça, ou mesmo não existe, sendo apenas marcada por um buraco que, em Giorgi, quando evocado, aparece sempre com os cuidados necessários para que pertença ao corpo, ou ainda, para que traga para si a atenção desejada, pois deve haver nele, o precioso umbigo, também algo de poético. Por fim as mãos, e a partir delas partimos para outro quesito não menos importante. Não sabemos exatamente a quem creditar tal barbeiragem, se ao autor, seja ele quem for, ou a fundição ou fundidor.
Existem sobre isso várias suposições. Por exemplo: a obra seria falsa de cabo a rabo, ou seja, modelada de má fé e fundida com fé ainda mais rasa. Percebe-se a má qualidade da fundição e talvez seja ela responsável por tornar algo que era sofrível em vergonhoso ou, acredito menos nessa hipótese, seria então uma obra original mal fundida. Talvez surja por ai a versão verdadeira e isso ajudaria muito a esclarecer nossa história. Por enquanto podemos afirmar apenas e seguramente que se trata de uma péssima reprodução. Pode-se concluir isso por três razões básicas. 1 - Os acabamentos dos dedos, sejam dos pés ou das mãos, são caracteristicamente conseqüência do retoque da cera. Quem trabalhou esses últimos 30 anos pelas fundições brasileiras reconhece facilmente esse, vamos chamar assim, caráter. 2 - A qualidade da fusão apresenta problemas de porosidades de diversas ordens, um fato recente que Giorgi não conheceu em vida, que poderia ser atribuída também a reproduções póstumas e legítimas - entraremos dessa questão mais adiante. Por enquanto basta saber que as irregularidades da superfície da obra causada por fervuras, inclusões e outros defeitos de fundição são inimigos da obra de arte, acabando por destruir a superfície da peça sem deixar rastro das mãos do autor. Em nosso caso uma parte desses problemas foram disfarçados com trabalhos com máquinas de abrasamento facilmente identificáveis. 3 - Por fim o metal, apesar de não ter realizado nenhuma análise metalográfica, creio poder afirmar que se trata de um latão bastante irregular. Ser latão não é exatamente o problema, há muito se trabalha com ligas com menos cobre e nem por isso se produziram obras de menor valor, mas neste caso o aspecto do metal causa péssima impressão.
Acreditando-se que o fundidor não estava em conúbio com um possível falsário, pode-se concluir simplesmente que este não possuía competência para reprodução da criação do autor, seja ele Giorgi ou não.
Porém, uma vez que a qualidade da fundição sabe-se, é menos culpa do fundidor brasileiro que de uma conjuntura de depreciação geral dos saberes artesanais ligados as Artes, antes chamadas Plásticas, agora Visuais e muito antes Belas Artes, pulo para a questão seguinte e que, me parece, é a mais intrigante. Como é possível que se vendam peças como esta? - o que se faz com mais freqüência do que se imagina - e misteriosamente, como é possível que se comprem peças assim? A resposta para a segunda pergunta não é tão difícil. Onde não há informação as pessoas são facilmente enganadas.
Entretanto, quando não sabemos mais reconhecer as qualidades, sejam técnicas ou estilísticas, ou quando podemos apresentar qualquer coisa, pois as novas e infindáveis reproduções que hoje circulam de Brecherets, Ceschiattis e Giorgis, são simplesmente qualquer coisa, é sinal que algo está errado. Deve-se compreender que a assinatura do artista – e esta é a prova final do nosso falso Giorgi, corrigida a talhadeira - não é a prova maior de autenticidade, antes seria a emoção que dela emana e que precisaria ser conservada, ou mesmo ampliada, quando traduzida para o metal. Sem ela estamos diante apenas de sucatas, metal sim que poderiam ser negociados na balança.
Em minha opinião, estão mais próximas dos originais as virtuosas falsificações que confundem, por anos, especialistas, do que essas reproduções realizadas à toque de caixa e sob auspício de associações ou familiares endossados, cujas ações, parecem ser, de natureza mais comercial que cultural. O fato é que, mais cedo ou mais tarde, será um tiro no pé. Ao invés da desejada valorização, essas reproduções já trazem grande desconfiança do mercado e dos museus brasileiros.
Uma mudança deste cenário passaria também por aqueles que negociam arte, ao menos de uma parte dessa classe, aquela que menos necessita do dinheiro rápido ou que ainda mantém certo amor pela profissão. Sem eles o comprador ou mesmo o colecionador ficará sempre sujeito a cair neste tipo de armadilha e a não confiar em seu próprio senso crítico. Mais ainda, poderia ele valorizar enormemente o que possui de realmente original e contribuir para incutir nos novos artistas a percepção de que a qualidade ainda seria o diferencial, inclusive no preço.
Defendo aqui minha bandeira que é simplesmente uma regulamentação para o setor. Leis que impeçam essa avalanche de reproduções de má qualidade, a criação de condições para que as fundições se modernizem voltando a produzir com competência e, por fim, que se crie consciência de que esse é um problema real da arte brasileira.
A história merece uma introdução. A peça a qual me refiro pertence a uma família com potencial a se tornar colecionadora de obras de arte, uma vez que um dos lados, o da mãe, vem de família que coleciona. Ou seja, não são pessoas absolutamente inocentes quanto ao mercado de arte.
Certa feita, foram os recém casados a um leilão “idôneo”, me afirmam, e lá arremataram por uma cifra razoável, pouco mais que uma oportunidade, um Bruno Giorgi.
A partir de então esta obra ficou, tranquilamente, vivendo seus dias de sol e orgulho nos jardins da casa, até o momento de ser colocada em xeque. Houveram inicialmente alguns protestos, mas infelizmente as evidencias levam a crer que a obra, antes reverenciada como um exemplar de um dos maiores escultores brasileiros, seja uma fraude.
Não creio que seja difícil prová-lo, as imagens parecem depor mais do que as palavras. Porém, mesmo assim, vamos a elas.
Em primeiro lugar o estilo. É fácil ver que apesar de Giorgi ter usado algumas vezes poses similares – sua aluna Sonia Ebling o fez muito mais - o modo como a forma é tratada está longe de ter a sutileza que marcou a carreira do escultor. Mesmo nas suas mais ousadas estilizações, Bruno Giorgi nunca abandonou a formação que adquiriu ao lado de, nada mais nada menos, Aristides Maillol. Essa marca, ou melhor, essa sensibilidade elaborada e particular em relação a forma é, de fato, sua assinatura e o que, por fim, mais emociona.
A segunda prova estaria nos detalhes, fisionomia, mãos, barriga, mesmo umbigo. Nenhumas dessas partes trazem características do autor, seja no sentido geral ou na execução e acabamento.
Comecemos pela cabeça. Se os olhos tentam imitar o estilo gráfico muitas vezes aplicado pelo mestre, a boca e nariz denunciam claramente a inexperiência do pseudo-escultor, uma tentativa banal de reproduzir o beiço e narinas de modo acadêmico. A própria fisionomia em nada lembra a mestiçagem imaginária Giorgiana tão carregada de tons indígenas e sutilezas de modelagem. A barriga não possui graça, ou mesmo não existe, sendo apenas marcada por um buraco que, em Giorgi, quando evocado, aparece sempre com os cuidados necessários para que pertença ao corpo, ou ainda, para que traga para si a atenção desejada, pois deve haver nele, o precioso umbigo, também algo de poético. Por fim as mãos, e a partir delas partimos para outro quesito não menos importante. Não sabemos exatamente a quem creditar tal barbeiragem, se ao autor, seja ele quem for, ou a fundição ou fundidor.
Existem sobre isso várias suposições. Por exemplo: a obra seria falsa de cabo a rabo, ou seja, modelada de má fé e fundida com fé ainda mais rasa. Percebe-se a má qualidade da fundição e talvez seja ela responsável por tornar algo que era sofrível em vergonhoso ou, acredito menos nessa hipótese, seria então uma obra original mal fundida. Talvez surja por ai a versão verdadeira e isso ajudaria muito a esclarecer nossa história. Por enquanto podemos afirmar apenas e seguramente que se trata de uma péssima reprodução. Pode-se concluir isso por três razões básicas. 1 - Os acabamentos dos dedos, sejam dos pés ou das mãos, são caracteristicamente conseqüência do retoque da cera. Quem trabalhou esses últimos 30 anos pelas fundições brasileiras reconhece facilmente esse, vamos chamar assim, caráter. 2 - A qualidade da fusão apresenta problemas de porosidades de diversas ordens, um fato recente que Giorgi não conheceu em vida, que poderia ser atribuída também a reproduções póstumas e legítimas - entraremos dessa questão mais adiante. Por enquanto basta saber que as irregularidades da superfície da obra causada por fervuras, inclusões e outros defeitos de fundição são inimigos da obra de arte, acabando por destruir a superfície da peça sem deixar rastro das mãos do autor. Em nosso caso uma parte desses problemas foram disfarçados com trabalhos com máquinas de abrasamento facilmente identificáveis. 3 - Por fim o metal, apesar de não ter realizado nenhuma análise metalográfica, creio poder afirmar que se trata de um latão bastante irregular. Ser latão não é exatamente o problema, há muito se trabalha com ligas com menos cobre e nem por isso se produziram obras de menor valor, mas neste caso o aspecto do metal causa péssima impressão.
Acreditando-se que o fundidor não estava em conúbio com um possível falsário, pode-se concluir simplesmente que este não possuía competência para reprodução da criação do autor, seja ele Giorgi ou não.
Porém, uma vez que a qualidade da fundição sabe-se, é menos culpa do fundidor brasileiro que de uma conjuntura de depreciação geral dos saberes artesanais ligados as Artes, antes chamadas Plásticas, agora Visuais e muito antes Belas Artes, pulo para a questão seguinte e que, me parece, é a mais intrigante. Como é possível que se vendam peças como esta? - o que se faz com mais freqüência do que se imagina - e misteriosamente, como é possível que se comprem peças assim? A resposta para a segunda pergunta não é tão difícil. Onde não há informação as pessoas são facilmente enganadas.
Entretanto, quando não sabemos mais reconhecer as qualidades, sejam técnicas ou estilísticas, ou quando podemos apresentar qualquer coisa, pois as novas e infindáveis reproduções que hoje circulam de Brecherets, Ceschiattis e Giorgis, são simplesmente qualquer coisa, é sinal que algo está errado. Deve-se compreender que a assinatura do artista – e esta é a prova final do nosso falso Giorgi, corrigida a talhadeira - não é a prova maior de autenticidade, antes seria a emoção que dela emana e que precisaria ser conservada, ou mesmo ampliada, quando traduzida para o metal. Sem ela estamos diante apenas de sucatas, metal sim que poderiam ser negociados na balança.
Em minha opinião, estão mais próximas dos originais as virtuosas falsificações que confundem, por anos, especialistas, do que essas reproduções realizadas à toque de caixa e sob auspício de associações ou familiares endossados, cujas ações, parecem ser, de natureza mais comercial que cultural. O fato é que, mais cedo ou mais tarde, será um tiro no pé. Ao invés da desejada valorização, essas reproduções já trazem grande desconfiança do mercado e dos museus brasileiros.
Uma mudança deste cenário passaria também por aqueles que negociam arte, ao menos de uma parte dessa classe, aquela que menos necessita do dinheiro rápido ou que ainda mantém certo amor pela profissão. Sem eles o comprador ou mesmo o colecionador ficará sempre sujeito a cair neste tipo de armadilha e a não confiar em seu próprio senso crítico. Mais ainda, poderia ele valorizar enormemente o que possui de realmente original e contribuir para incutir nos novos artistas a percepção de que a qualidade ainda seria o diferencial, inclusive no preço.
Defendo aqui minha bandeira que é simplesmente uma regulamentação para o setor. Leis que impeçam essa avalanche de reproduções de má qualidade, a criação de condições para que as fundições se modernizem voltando a produzir com competência e, por fim, que se crie consciência de que esse é um problema real da arte brasileira.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Informações sobre curso de FUNDIÇÃO ARTÍSTICA no SENAI
Em
janeiro acontece o novo workshop de fundição artística do SENAI.
A novidade fica por conta do desenvolvimento dos refratários especiais para reprodução de obras de arte.
Como se sabe, a fundição é basicamente uma reprodução e o material que compõe o molde refratário, responsável por receber o metal líquido a mais de 1000 graus, é o ponto principal de todo processo.
O Centro Técnico em Fundição Artística SENAI desenvolveu neste último ano duas linhas de pesquisa em refratários: a primeira, diretamente ligada a indústria, que são os moldes chamados de "casca cerâmica" ou "fundição de precisão". São moldes cujo gesso tradicional é substituido por sílica coloidal e minerais, entre eles a zirconita e possibilitam, como o próprio nome do processo indica, grande fidelidade ao modelo original. Quanto ao processo tradicional, a base de gesso, encontramos no Brasil uma empresa, a Goldstar, filial de uma das maiores empresas do setor de refratários europeus e cuja matriz está na Inglaterra. Através desse contato foi possível desenvolver um produto nacional similar ao europeu destinado a fundição de esculturas e que estará disponível no mercado brasileiro contribuindo com a qualidade da reprodução nacional.
A novidade fica por conta do desenvolvimento dos refratários especiais para reprodução de obras de arte.
Como se sabe, a fundição é basicamente uma reprodução e o material que compõe o molde refratário, responsável por receber o metal líquido a mais de 1000 graus, é o ponto principal de todo processo.
O Centro Técnico em Fundição Artística SENAI desenvolveu neste último ano duas linhas de pesquisa em refratários: a primeira, diretamente ligada a indústria, que são os moldes chamados de "casca cerâmica" ou "fundição de precisão". São moldes cujo gesso tradicional é substituido por sílica coloidal e minerais, entre eles a zirconita e possibilitam, como o próprio nome do processo indica, grande fidelidade ao modelo original. Quanto ao processo tradicional, a base de gesso, encontramos no Brasil uma empresa, a Goldstar, filial de uma das maiores empresas do setor de refratários europeus e cuja matriz está na Inglaterra. Através desse contato foi possível desenvolver um produto nacional similar ao europeu destinado a fundição de esculturas e que estará disponível no mercado brasileiro contribuindo com a qualidade da reprodução nacional.
SEGUNDO WORKSHOP DE FUNDIÇÃO ARTÍSTICA SENAI
Acontece entre os dias 25 e 28
de janeiro de 2012 o II Workshop de Fundição Artística do SENAI. Esta oficina
faz parte de uma série de atividades do CENTRO TÉCNICO EM FUNDIÇÃO ARTÍSTICA (ver
informações abaixo) cuja missão é recuperar e implementar novas tecnologias a
serviço da reprodução de obras de arte em metal.
O Workshop é direcionado a
estudantes, técnicos em metalurgia, artistas, restauradores, empresários do
setor e público em geral. O curso não exige conhecimentos anteriores de
fundição ou arte.
Durante os quatro dias do
workshop serão apresentadas, em aulas práticas e teóricas, todos os etapas que
envolvem a fundição em metal de uma escultura, dos cuidados para moldagem do
original à fusão dos metais e pátina da obra final.
Os processos serão
apresentados por uma equipe especializada que buscaram na Europa informações
sobre o que há de mais moderno utilizado pelo setor, se aproximando também das
tradições seculares que mantêm vivas essas práticas.
São exemplos dessas
referências o centro de fundição artística de Pietrasanta, na Toscana, onde são
fundidas as obras de Francisco Botero e a fundição francesa Coubertin,
responsável pelas novas reproduções de Rodin e Bourdelle. Durante o workshop
serão apresentados estes centros e as técnicas aplicadas por cada uma delas.
ABERTURA DO CENTRO TÉCNICO EM FUNDIÇÃO
ARTÍSTICA SENAI
Desde o final das atividades
ligadas a fundição artística do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, nenhuma
instituição brasileira investia na qualificação e modernização do setor. O
SENAI, cuja missão se aproxima à antiga instituição possuía as condições
técnicas e recursos humanos necessários. Foram realizados, nos últimos três
anos, a capacitação de uma equipe técnica, investimentos em equipamentos e
treinamento para apresentarem ao público os cursos especializados em fundição
de obras de arte.
Em 2011 foram realizados os
primeiros cursos abertos ao público, entre eles uma oficina exclusiva para
alunos do curso Artes Visuais da ECA/USP.
Histórico
Existe oficialmente no Brasil
cerca de quinze fundições artísticas. Seus proprietários são, em sua maioria,
netos ou artesões que trabalharam com os imigrantes italianos no começo do séc.
XX. Esses artesões chegaram ao Liceu de Artes e Ofícios tornando-o capaz de
executar, com maestria, os principais monumentos de São Paulo. Alguns
escultores também se tornaram importantes fundidores. Este é o caso de Amadeo
Zani que, aos 27 anos, exercia o magistério no Liceu convidado pelo
engenheiro-arquiteto Ramos de Azevedo. Na década de 30, inaugurou a própria
fundição no Rio de janeiro vindo a se tornar, nas décadas seguintes, uma das
mais importantes fundições comercial do Brasil. Na década de sessenta foi a
Fundição Zani a responsável pela execução dos principais monumentos de
Brasília.
A fundição artística hoje
De lá para cá a fundição
artística brasileira perdeu mercado e a condição para se modernizar. As
conseqüências destes problemas se refletem nas cidades, museus e ateliês. Da
conservação das obras públicas e acervos museológicos à aplicação desta técnica
de produção à arte contemporânea, a renovação destes conhecimentos pode inferir
qualidade na vida cultural das cidades e promover a conservação de uma memória
material e imaterial.
Público Alvo
O "Workshop" é um
curso intensivo cujo objetivo é atender a sociedade de modo abrangente e por
isso não exigem conhecimentos anteriores relativos à fundição artística ou de
metais.
WORKSHOP
"FUNDIÇÃO ARTÍSTICA POR
CERA PERDIDA"
De 25 a 28 de janeiro de 2012
De quarta a sábado, das 9 às
17h00.
Vagas limitadas a 20
participantes
Carga horária: 32 horas
Local:
SENAI - Escola Nadir Dias de
Figueiredo
Rua Ari Barroso, 305,
Presidente Altino, Osasco - SP
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Novo curso de FUNDIÇÃO ARTÍSTICA no SENAI
II WORKSHOP
"FUNDIÇÃO ARTÍSTICA POR CERA PERDIDA"
De 25 a 28 de janeiro de 2012
De quarta a sábado, das 9 às 17h00.
Vagas limitadas a 20 participantes
Carga horária: 32 horas
Local: SENAI - Escola Nadir Dias de Figueiredo
Rua Ari Barroso, 305, Presidente Altino, Osasco - SP
Para informações seguem os contatos:
11 3685.7980 / fundicao119@sp.senai.br
http://www.senai.br/
"FUNDIÇÃO ARTÍSTICA POR CERA PERDIDA"
De 25 a 28 de janeiro de 2012
De quarta a sábado, das 9 às 17h00.
Vagas limitadas a 20 participantes
Carga horária: 32 horas
Local: SENAI - Escola Nadir Dias de Figueiredo
Rua Ari Barroso, 305, Presidente Altino, Osasco - SP
Para informações seguem os contatos:
11 3685.7980 / fundicao119@sp.senai.br
http://www.senai.br/
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
MUSAS IMPASSIVEIS 2
"A Musa impassível, de Victor Brecheret, é uma das maravilhosas esculturas que integram, desde 2006, o acervo da Pinacoteca do Estado, ao lado do Parque da Luz.
Por décadas, a Musa permaneceu “impassível” no Cemitério do Araçá, no túmulo da poetisa parnasiana Francisca Júlia da Silva, que faleceu em 1920", assim apresenta o flickr do Yahoo.
Lá, no túmulo da poetisa, foi colocada uma réplica em bronze.
Segue na postagem abaixo imagens das duas musas.
Se observarmos com calma perceberemos que a de metal acabou por ficar inclinada para trás, transformando o caráter hierático, uma expressão sacerdotal de acentuada majestade e rigidez, característica de muitas das importantes obras de Victor Brecheret, em certa pompa descabida. Em vez do colo como fonte principal de energia, a barriga se pronunciou para frente dando certa sensação de lordose ou desconforto. As linhas perfeitamente horizontais do pescoço e perfil - nariz e testa - foram jogadas para a diagonal, influindo decisivamente no aspecto formal da obra, algo também de imensa importância na estética de Brecheret.
Curiosamente, neste caso, a fundição conseguiu reproduzir bastante bem a superfície da obra, algo difícil para as condições técnicas brasileiras da fundição artistica na atualidade. O metal ainda possui uma porosidade importante, porém, uma vez que o próprio original perdeu boa parte da riqueza de detalhes, outra característica fundamental do autor, as novas perdas não parecem significativas.
Porém, para aqueles que vão visitar a obra no túmulo com o propósito de se aproximar de uma importante obra de um dos nossos maiores mestre da escultura e do modernismo brasileiros me parece que ficará certa dúvida sobre esse encontro.
Ficam então algumas perguntas:
Encontrará lá o mistério e rigor formal comum ao grande escultor? Saberá ele compreender que essas perdas e deformações são “naturais” na reprodução de uma obra de arte? E são naturais? Saberá ele que é uma reprodução? Será que são aceitáveis essas alterações? Qual critério foi usado durante a realização da reprodução? De quem era a responsabilidade de acompanhar o processo de fundição da obra?
Afinal, a obra escultórica possui uma sintaxe feita de formas, volumes, linhas, contornos... são o modo e a feitura deste jogo que fazem a qualidade do autor e ao alterá-las não se perde pouco. Assim sendo, o que essa nova peça representa no conjunto da obra de Victor Brecheretl? E ainda, o que significa essa questão em relação ao nosso patrimônio cultural?
Afinal, a obra escultórica possui uma sintaxe feita de formas, volumes, linhas, contornos... são o modo e a feitura deste jogo que fazem a qualidade do autor e ao alterá-las não se perde pouco. Assim sendo, o que essa nova peça representa no conjunto da obra de Victor Brecheretl? E ainda, o que significa essa questão em relação ao nosso patrimônio cultural?
terça-feira, 18 de outubro de 2011
EXPO FUNDIÇÃO ARTÍSTICA
Estou capitando recursos, via Lei Rouanet, para um projeto sobre a FUNDIÇÃO ARTÍSTICA BRASILEIRA.
Quem quiser conhecer o projeto segue o link:
www.fundicaoartistica.blogspot .com
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
AS OFICINAS EM SÃO PAULO CONTINUAM
Sempre as quartas, continuo recebendo artistas e estudantes com o objetivo de aperfeiçoar e trocar informações sobre o metier da escultura.
Da moldagem à fundição em bronze, da modelagem em argila ao desenho, os grupos tem acesso a informações técnicas, bibliografia e trabalho prático.
O ateliê possui forno para queima dos originais e durante o dia ocorrem sessões com modelo vivo para a prática de modelagem e desenho.
às quartas-feiras
das 09 as 12h ou 14 as 17h
Da moldagem à fundição em bronze, da modelagem em argila ao desenho, os grupos tem acesso a informações técnicas, bibliografia e trabalho prático.
O ateliê possui forno para queima dos originais e durante o dia ocorrem sessões com modelo vivo para a prática de modelagem e desenho.
às quartas-feiras
das 09 as 12h ou 14 as 17h
informações
2609.9171
2609.9171
i.kislansky@ig.com.br
Local: Rua Teodoro Sampaio, 855, 1B, Pinheiros - SP
terça-feira, 4 de outubro de 2011
ESCULTURAS PAULISTANAS
Fotografar as esculturas no centro de São Paulo não é tarefa fácil. Primeiro porque algumas praças, ao menos as duas que fui hoje, são banheiros públicos. Você deve fotografar com o maior cuidado para não pisar em m. e o cheiro também não ajuda. Depois a preocupação, suspeita pelos olhares e movimentações, de um possível assalto. O resto são os pinéis, cachorros e mesmo policiais que, infelizmente, não possuem olhares mais apaziguadores. Tirando tudo isso, a tarde foi ótima! As obras valem a pena e, a despeito do academicismo, possuem seu charme. Se o entorno ajudasse o paulistano seria bem mais feliz.
Fico pensando que estes monumentos deveriam ser tratados como os museus, com verba, administração própria e política de uso, no sentido de tornar esses espaços vivos. Possuímos obras realmente boas e TALVEZ, apenas, nossos netos aproveitem. Gostaria eu de fazê-lo!
A peça acima é uma homenagem a Alfredo Maia, não o conheço, desculpem, e está na frente da Sala São Paulo.
TOLERÂNCIA - Bahia e Judaísmo - 2ª parte
Somos identidades individuais muito complexas e não nego que nossa formação cultural faça parte dela. Porém, gostaria agora de fazer um esforço de imaginação e furar essas barreiras para estar simplesmente ao lado de alguém, seja ele quem for - judeu, baiano, negro, branco, amarelo ou ainda a mistura de alguns deles - e olhar a sua volta.
Estaremos então diante de alguém que ama, sofre, ri, chora, tem filhos ou não, teve pais, estuda ou trabalha. Este ente vive numa sociedade com justiças e injustiças e muitas vezes é atormentado pelas escolhas entre “verdades” e “mentiras”. Por fim, ele sonha, pondera e deseja. Basicamente qualquer um de nós, pois somos, afinal, apenas estes seres humanos, limitados, voluntariosos e, segundo nosso Machado de Assis, atraídos pela “quimera da felicidade”.
Lembrar que o outro sente e vive apenas como nós mesmos, independente das distância culturais e físicas, é sem dúvida o primeiro passo no sentido de encurtar as distâncias e amolecer certas barreiras que aparentemente separam os povos. Esse tipo de aproximação em direção ao indivíduo foi uma das recentes e maiores conquistas da humanidade – se pensarmos que 300 anos está logo alí. Um processo que acompanha as transformações do mundo desde o século XVIII, passando pelo fim das monarquias absolutas, pela revolução francesa, pela emancipação, primeiro da maioria e depois das minorias, pela revolução que significou a psicanálise ou mesmo a mini-saia. Todas elas trabalharam contra os pré-conceitos e ajudaram a ampliar a igualdade entre raças, sexos e classes sociais. A noção moderna de direito, por mais difícil que seja sua prática, nos faz crer, ao menos, que não andamos em vão.
Hoje percebemos claramente que os movimentos fascistas do princípio do séc. XX foram uma cruel resistência aos caminhos da liberdade. Não a toa pregaram a limpeza racial e bradaram firmemente contra a arte moderna. Mesmo agora, o radicalismo pulverizado mundo afora não representa mais que um grito desesperado de medo. Medo do erro, das transformações, medo das perdas, enfim, daquilo que é mais humano. Viver em liberdade implica em acertar e errar, mudar de caminho, duvidar, experimentar, ser responsável pelos seus atos e respeitar o outro que guia-se pelo seu próprio norte. Sem dúvida algo complexo, um aprendizado diário do qual levamos para o túmulo apenas a sensação da busca, pois somos e seremos sempre imperfeitos. O resultados dos esforços acumulados são conquistas que se abrem para todos e usufruimos delas sem o perceber. Para o obtuso, porém, será sempre mais fácil ordenar ou seguir ordens que lhes “assegurem a felicidade".
Aquele “indivíduo”, o outro, igual a nós mesmos, busca apenas um acerto de contas consigo mesmo. As vezes, tem acesso a caminhos que atendem a essa necessidade, as vezes, e infelizmente, se interpõe ao seu percurso verdades alheias.
Poderíamos também pensar as culturas como indivíduos.
Afinal, o que regem as relações entre as pessoas? Poderíamos viver isolados, um sem o outro? Não é justamente na troca que crescemos e nos realizamos? E ao fazê-lo, deixamos de ser nós mesmos? Existe relação entre dois indivíduos sem respeito e independência?
Se, como indivíduos, estivermos um pouco mais preparados para o contato com o outro, e todas as suas conseqüências, sairemos mais ricos dessa troca, e certamente diferentes.
O mesmo se dá em relação as culturas.
De qualquer modo estou seguro que ao transformar culturas em abismos que dividem e delimitam os povos comete-se um grande erro. Em primeiro lugar porque as culturas são, e sempre serão, permeáveis. Nunca existiu esta tal pureza e os exemplos salpicam mundo afora. A música judaica é inimaginável sem os ritmos árabes. O cristianismo possui uma matriz judaica. Os mitos africanos se misturaram de tal modo ao catolicismo que frequentemente se trocam os nomes dos santos pelos respectivos Orixás do Candomblé. O Brasil e a Bahia justamente encantam o mundo por essa permeabilidade, pois aqui nunca saberemos exatamente onde começa e termina a influência de tantas culturas e indivíduos.
domingo, 2 de outubro de 2011
TOLERÂNCIA - Bahia e Judaísmo - 1º parte
Nascer judeu na Bahia causa imediatamente certa perplexidade.
Algo parecido a uma piada pronta.
Mas de onde vem exatamente essa sensação?
São de fato duas informações carregadas de significados intensos e aparentemente antagônicas. A Bahia seria sinônimo de alegria, festa, liberdade, extroversão, corporeidade, música e afeto. O judaísmo, por mais que seja uma cultura permeada de atributos semelhantes, parece se opor imediatamente a todas elas, tal como água e azeite, que se repelem ao menor contato. Logo, ao pensarmos o judaísmo, ao lado da baianidade, somos levados a visualizar um judeu triste, cinzento, carrancudo ou avarento.
Para acabarmos com essa ilusão, e podermos avançar em relação ao chiste, bastaria dizer apenas que existem muitos baianos tristes, aborrecidos e certamente avarentos. Digamos melhor: por trás dos vernizes das culturas existem, por fim e ao cabo, toda fauna humana, e em cada povo ou nação hão de haver sempre a mesma galeria de virtudes e defeitos presentes pelos quatro cantos da terra. Ou seja, entre judeus, católicos, muçulmanos ou iorubás existe gente honesta, feliz e extrovertida e ao lado destes - como não deveria causar estranheza - os desonestos, tristes e introvertidos.
Para acabarmos com essa ilusão, e podermos avançar em relação ao chiste, bastaria dizer apenas que existem muitos baianos tristes, aborrecidos e certamente avarentos. Digamos melhor: por trás dos vernizes das culturas existem, por fim e ao cabo, toda fauna humana, e em cada povo ou nação hão de haver sempre a mesma galeria de virtudes e defeitos presentes pelos quatro cantos da terra. Ou seja, entre judeus, católicos, muçulmanos ou iorubás existe gente honesta, feliz e extrovertida e ao lado destes - como não deveria causar estranheza - os desonestos, tristes e introvertidos.
Podemos dizer também que influem sobre estes estereótipos certa realidade factual vinda de episódios e mesmo de locais muito específicos.
Boa parte da imagem judaica vem de certa experiência acumulada por séculos de perseguição e pobreza, muito ligada ao leste europeu, onde contribui para compor a estética do quadro um frio intenso e a escuridão dos trajes. Sinto talvez que pareça superficial atribuir as imagens a percepção sobre um povo, mas o que fazer se os olhos têm sua lógica? A Bahia, por exemplo, vive do mito da felicidade e boa parte dessa percepção vem do sol, do céu azul, da natureza exuberante, da miscigenação racial e do carnaval.
Devemos pensar ainda que coladas a essas imagens estão, pelo lado judaico, um histórico, bastante disseminado, de riqueza vinda através de um suposto comprometimento “burguês” e, para finalizar, a negação ao cristianismo, mais especificamente ao Cristo. Do lado baiano junta-se as imagens solares certo hábito festivo ligado às origens portuguesas, mas principalmente africanas, e daí também a idéia de sensualidade associada aos povos "primitivos” da mãe África.
Inverter a lógica não me parece muito difícil, desde que estejamos atentos a realidade, que é sempre mais complexa que a fotografia na parede. Porém, não devemos também subestimá-las, pois, além das verdades que estas possuem, agem como espécie de auto-referência para nossas identidades. Digamos apenas que ao conhecermos pessoalmente esses "personagens” ampliamos nossa percepção sobre o “sujeito” e começamos a enxergar um universo mais amplo que poderá, para surpresa geral, nos levar a um único homem.
Ao chegarmos mais perto, conheceremos, em primeiro lugar, uma Bahia diferente daquela imaginada, onde a miscigenação não foi capaz de diluir o preconceito racial, este ligado a uma tradição coronelista arraigada, cujas transformações sociais das últimas décadas, infelizmente, só ampliaram o abismo entre ricos e pobres. E então, muitas vezes, ao andarmos pelas ruas da Cidade Baixa, somos hoje surpreendidos por uma nítida sensação de apartheit. Dito assim, de modo tão direto, pode soar tão estranho quanto afirmar que o judaísmo é uma cultura que celebra a alegria e que os judeus, de um modo geral, estão muito mais envolvidos com as artes e a ciência do que com especulação financeira. E mais, que ainda hoje, entre judeus, existem pobres.
Estamos agora diante de um novo quadro, na realidade o negativo daquela fotografia e, como tal, mal reconhecemos a imagem.
Estamos agora diante de um novo quadro, na realidade o negativo daquela fotografia e, como tal, mal reconhecemos a imagem.
Afinal, haveria uma certa?
Mesmo aqueles que se interessam em investigar a realidade não deixariam de rir da piada. E nesse sentido poderíamos dizer que as duas percepções estão certas e erradas. As imagens iniciais, aquelas que nos fazem rir, possuem sim sua carga de verdade e o oposto, por incrível que pareça, também.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Voltando ao trabalho...
Tenho três peças que preciso terminar até o final de ano, uma delas é a de cima cujo garotinho é meu filho Igor...
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
OBRIGADO.
Ontem encerramos a mostra da Caixa. Hoje, na desmontagem, já dividiremos as coisas. Uma parte vai para Piracicaba, onde parte da mostra será reapresentada, outra volta para os seus donos e algumas fotos serão alteradas por monumentos baianos que serão apresentadas em outubro, no restaurante Soteropolitano, em SP. E, por fim, algumas peças vão pro depósito, aguardarem outro convite.
Obrigado a todos pelo carinho com a exposição e conosco q trabalhamos nela, curador, comunicação, monitores e a Caixa.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
INFORMAÇÕES SOBRE OFICINA EM SALVADOR - SETEMBRO 2011
OFICINA DE ESCULTURA
com Israel Kislansky
Dias 23 e 24 de setembro
Sexta, das 20 as 22h
Palestra
A FUNDIÇÃO ARTÍSTICA NO BRASIL
Dias 23 setembro
Sexta, das 20 as 22h
Topicos:
A fundição em metal de obras de arte no Brasil;
A técnica da fundição artística por cera perdida;
A fundição artística européia na atualidade;
Monumentos e escultores brasileiros.

Prática
A MODELAGEM DO CORPO HUMANO
Dia 24 setembro
Sábado, das 09 as 13h e das 14 as 18h
Topicos:
Técnica de modegem em argila;
Cabeça e torso.
Informações e inscrições:
(71) 8714.7604
kislansk8@hotmail.com
Local:
Rua São Paulo, 682, 2º andar
Pituba, Salvador - Ba
com Israel Kislansky
Dias 23 e 24 de setembro
Sexta, das 20 as 22h
Palestra
A FUNDIÇÃO ARTÍSTICA NO BRASIL
Dias 23 setembro
Sexta, das 20 as 22h
Topicos:
A fundição em metal de obras de arte no Brasil;
A técnica da fundição artística por cera perdida;
A fundição artística européia na atualidade;
Monumentos e escultores brasileiros.

Prática
A MODELAGEM DO CORPO HUMANO
Dia 24 setembro
Sábado, das 09 as 13h e das 14 as 18h
Topicos:
Técnica de modegem em argila;
Cabeça e torso.
Informações e inscrições:
(71) 8714.7604
kislansk8@hotmail.com
Local:
Rua São Paulo, 682, 2º andar
Pituba, Salvador - Ba
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Por Fernando Rios, após uma visita a Exposição, seguida de parada ocasional em boteco na Praça da Sé, numa terça feira, às seis da tarde, para degustação de costelas de boi regada a uma boa cachaça...
ISRAEL KISLANSKY
ESCULTURAS PARA SEREM ESCULPIDAS PELO OLHAR
kislansky é um judeu baiano.
ou um baiano judeu.
ou nem uma coisa nem outra.
também é um brasileiro com cara de europeu. ou não. ou um europeu com cara de brasileiro.
(afinal de contas, qual é a cara do brasileiro?)
(pode ter a cara de kislansky, brasileiro de corpo e alma.)
há muito tempo, kislansky tomou a si a mesma tarefa divina
(mas sem a intermediação da costela)
de transformar barros em seres humanos homens e mulheres
à imagem e semelhança de deus brasileiro
e baiano e multifacial e multicorporal e multirracial
e de tantos e tantos transformares
ele transformou o barro em gente
e gente em bronze
e kislansky apregoava caladamente que ali estavam suas criações
aquelas, de antes, se apresentavam na íntegra, figuradas, e diziam e continuam dizendo que são aquilo que são
naquele tempo, kislansky era objetivo,
plasticamente objetivo,
poeticamente objetivo,
nas expressões, nos gestos que suas mãos moldavam e registravam
aqueles homens eram solidamente ternos, leves, sensuais
aquelas mulheres eram solidamente ternas, leves, sensuais
aquelas figuras humanas continuavam a ser
em frente dos olhares que as perscrutavam.
ternas, leves, sensuais.
elas diziam a que vieram
elas eram aquilo que diziam ser
agora, kislansky abandonou seu ar divino.
ele pode ter dito:
- deus que se dane em mim. eu que me dane em deus!
e então foi novamente ao barro e criou figuras
figuras matizadas, coloridas
figuras colorindo-se
agora, são quaisquer figuras
lembram e remetem para humanas figuras
à espera de serem recriadas pelos olhos dos transeuntes.
as novas figuras de kislansky não existem nelas mesmas
elas existem e querem existir na emoção de cada olhar emocionante
e emocionado.
elas insistem em existir na poesia que deixam escorrer
e encontra um olhar atento e sensível
elas são criaturas em criação
e permitem serem recriadas pelos olhos
e quando as vemos,
em cada tempo seguinte,
temos a certeza de que não são mais as mesmas
agora, as criaturas são e estão sempre à espera e diante de um criador
não são mais criaturas de kislansky
ele criou-as livrearbitrariamente
e, como melhor criador ainda, despossuiu-se delas
elas são propriedades de quem as vê e as recria
e serão sempre recriaturas diante de recriadores
agora, kislansky se despiu de sua divindade
e a oferece às pessoas para que elas,
divinamente,
passem a criar, a possuir e a despossuir aquelas poéticas figuras
que se esfumaçam e se concretizam
e se esfumaçam e se concretizam
e se esfumaçam e se concretizam
diante de cada novo olhar
e então,
transcendentalmente,
desmisteriosamente,
poeticamente,
figuras
seres
seres humanos, talvez,
criaturas, sim,
enigmas que se propõem
devidamente recriados,
caminham para onde...
desfilam diante de kislansky,
o criador
fernado rios,
são paulo, agosto, 2011.
são paulo, agosto, 2011.
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